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Monólogo ou aula?

Dizem que um dos maiores problemas do professor é sua garganta, seu instrumento de trabalho. Sempre discordei disso porque não entendo aula como sinônimo de monólogo, no qual o professor se esgoela em frente a uma classe de alunos que não estão nem aí com o que ele está falando.

Imagino que depois de um período de 5 aulas nas quais eu falei o tempo inteiro eu teria que ir direto para o consultório de um otorrinolaringologista – e nem conseguiria falar essa palavra.

Eu sempre utilizei recursos em sala que me poupassem a voz e que também poupassem os alunos dessa chatice que é ficar 50 minutos ouvindo alguém falar. Uso jogos, apresentações, vídeos. Faço perguntas o tempo inteiro e nunca faço afirmações, só perguntas. Com as perguntas vou levando os alunos a deduzirem e com isso vou partindo do que sabem para introduzir tópicos novos.

Aguce a curiosidade de seus alunos, faça com que pensem e encontrem respostas, apresente material extra que os faça mais que obter respostas, mas formular perguntas. Permita-lhes o sabor da descoberta, vá no tempo deles em vez de se atropelar com frases e frases que serão ouvidas apenas parcialmente.

Se você sai da sala esgotado é sinal que alguma coisa não está como deveria ser. É sinal de que é hora de mudar sua postura e sua proposta. Sua aula será mais alegre e movimentada se seus alunos fizerem a parte do leão e você apenas gerenciar. Pense nisso!

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Zailda Coirano

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Ensino de português para estrangeiros (PLE)

portuguesSempre que me envolvo na discussão “que tipo de recursos usar para ensinar português para estrangeiros” há sempre alguém (frequentemente mais de uma pessoa) dizendo que devemos usar “recursos reais”.

Eu não vou aqui desmerecer quem fez mestrado, doutorado e tudo o mais para ensinar português para estrangeiros, mas também me reservo o direito de ter a minha opinião. A mim me parece que há um certo “preciosismo” quando se fala no ensino de PLE, como se fosse algo que paira acima do ensino de outros idiomas e que, assim sendo, não tem qualquer relação com as metodologias empregadas no ensino de inglês, francês ou outro idioma qualquer. A impressão que se tem é que aprender português é algo diferente de aprender qualquer outra segunda língua.

Não acredito que seja assim. Podemos ensinar português usando a mesma metodologia com que ensinamos espanhol ou russo, mudando apenas o vocabulário e a gramática – of course!

Da mesma forma que usamos livros e apostilas para o ensino de outros idiomas, podemos fazer o mesmo com o bom e velho português. Como acontece nas aulas de inglês, material “real” pode e deve ser usado – aliado ao material didático e paradidático empregados – para que haja não só uma adequação do aluno ao idioma como ele é falado, mas também a sua familiarização com vocabulário e gramática de acordo com o padrão da língua.

Os regionalismos são também importantes, mas eu me pergunto: se um carioca é capaz de viver uma vida inteira e se comunicar muito bem sem conhecer o “dialeto” do mineiro ou do gaúcho, por que eu teria que sobrecarregar meu aluno estrangeiro tentando passar para ele TUDO o que se fala no Brasil?

Eu acredito que o aluno deva explicar ao professor os motivos que o levaram a procurar um curso. Baseando-se nesses motivos o professor poderá então direcionar o vocabulário / sotaque / enfoque / material “real” para os objetivos do aluno:

– Para fins profissionais? Qual profissão? Como será a comunicação – falada, escrita, etc.?

– Vai fazer um curso? Que curso? Que livros vai usar? Haverá necessidade de desenvolvimento das habilidades fala e audição?

– Vai viajar para o Brasil? Para que Estado ou região? Com quem terá contato? Quanto tempo vai ficar?

E assim por diante. Mais que “a opinião do professor” deve-se adequar o conteúdo e o método às necessidades do aluno, dos alunos ou da classe em geral, sua faixa etária, o uso que fará (ou farão) do idioma, o nível ao qual pretende chegar, quanto tempo tem para estudar, qual a carga horária e duração do curso, e outras considerações do gênero que devem pesar tanto na escolha do material quanto na elaboração das aulas e na definição da metodologia a ser empregada.

Minhas crenças como professor são muito importantes, mas eu não posso olhar apenas para meu umbigo e aferrar-me a elas, esquecendo que o objetivo maior do curso existir é o aluno, dessa forma minhas crenças devem ser elásticas o suficiente para que possam fornecer a ele exatamente o que está procurando.

Zailda Coirano – SOS Idiomas & Digital Goods

Lição de casa

Como fazer para que – pelo menos – a maioria dos seus alunos faça a lição de casa completa? É um problema quando os alunos começam a dar desculpas e a fazerem apenas uma parte da lição. Se isto está acontecendo com certa freqüência ou em grande escala em sua classe, que tal refletir a respeito?

Se damos uma lição de casa muito extensa ou muito complicada, certamente a maioria não irá fazer ou fará de forma incompleta. Lidamos mal com a frustração, nossa tendência é sempre fugir dela. Coisas difíceis trazem embutida uma possibilidade maior de frustração, logo a maioria nem tentará fazer. Tarefas muito extensas são cansativas e pode fazer com que sintam-se desanimados antes mesmo de começar.

Se damos um prazo muito curto (para amanhã, por exemplo) alguns alunos que têm outras atividades poderão não ter tempo suficiente para se organizarem e cumprirem a obrigação. Prazos muito longos farão com que a deixem “para amanhã” ou que a esqueçam completamente (era para hoje???). De 3 dias a 1 semana, dependendo da quantidade de exercícios ou da dificuldade dos mesmos me parece o melhor. Conseguirão se organizar para fazê-lo e não dará tempo de esquecer que existe.

Lição de casa repetitiva também é quase certeza de baixa participação dos alunos. Copiar 20 vezes a mesma frase não é uma boa opção. Variar sempre o tipo de exercícios, incluir cruzadinhas, desafios, piadas inseridas no contexto, quadrinhos, entrevistas a amigos e familiares, pesquisa, etc. fará com que se interessem pelo menos em tentar.

Claro que essa não será a solução para todos, mas repensando suas “lições de casa” você conseguirá um número bem maior de adesões e os “renitentes” poderão ser tratados caso a caso.

Leia também:

Favoreça a prática constante

Preparação de aula


Você tem alunos adultos?

Aluno adulto é diferente de aluno adolescente ou criança. Se a criança ou adolescente apresenta algum problema ou se não faz a lição, na maioria das vezes uma ligação para os pais (ou a mera sugestão de que a irá fazer) pode resolver o problema.

Mas e quando o aluno é também o responsável por si mesmo e pelo pagamento do curso e do material?

Aí as ameaças não surtem efeito, o máximo que se pode conseguir seguindo esse caminho será aumentar a evasão escolar. E esse não é nosso objetivo.

Com alunos adultos temos que ter muita paciência, conversar, ver os motivos do aluno, orientar, ajudar. Temos sempre que estimular, mostrar o progresso conseguido, enfatizar a necessidade do esforço. Tornar a matéria acessível e compreensível, não forçar a barra na lição de casa (normalmente o adulto tem outras obrigações, além da escola).

Não se trata aqui de priorizar outras áreas da vida do aluno adulto, diminuindo o papel da escola, mas se o sobrecarregarmos de atividades é o que ele certamente fará. Vendo que não irá dar conta do que tem que fazer para a escola, acabará deixando de lado, optando por fazer outras coisas que considere menos árduas ou mais necessárias.

Talvez seja necessário ajudar o aluno adulto a organizar seu tempo. Sugestões devem ser dadas, tendo-se em vista as outras atividades que o adulto tem durante a semana. Pergunte seus horários, suas atividades, faça um resumo e sugira horários ou dias nas quais seria possível estudar e preparar as lições para o curso.

Sempre que possível, mantenha-se disponível para contato e pedidos de ajuda por telefone, celular ou email. O adulto não gosta de fracassar, de tentar fazer e não conseguir. Muitos adultos são também funcionários bem sucedidos e não estão habituados a lidar com a frustração. Se tentam e não conseguem ajuda para levar a cabo o que têm que fazer podem deixar de fazer para não terem que lidar com a sensação de fracasso e frustração. Sentem-se humilhados quando tentam e não conseguem. Portanto pode ser uma boa ideia estar a postos para uma orientação de emergência, transformando assim uma possível frustração em aprendizado.

Lidar com alunos adultos envolve muito mais negociação que orientação. Muitos já têm ideias preconcebidas de suas prioridades e seria difícil mudá-las, então o melhor é aprender também a adaptar-se a elas.

A disposição das carteiras na sala de aula

Eu sei que esse assunto é complicado porque nem sempre há lugar na sala para os alunos que temos, então falar da disposição das carteiras pode parecer uma utopia. A disposição tradicional (em fileiras) pode ser a que abriga o maior número de carteiras na sala e portanto a mais prática, mas não é a mais eficiente do ponto-de-vista didático.

Trabalho há anos (desde 98) com as carteiras em círculo e essa é a melhor disposição em minha opinião. Se não há lugar para todos os alunos em um grande círculo, por que não um círculo maior com outro menor no centro deste?

Claro que esse “círculo” seria aberto na parte da frente da sala, dando passagem para o professor. Dessa forma o professor, à medida em que explica, passeia por entre os alunos, e pode dar sua aula alternando-se entre o quadro (ou a frente da sala, onde pode haver também um aparelho de DVD) e o centro do(s) círculo(s).

As vantagens são inúmeras porque o professor (mesmo que haja dois círculos, um dentro do outro) tem um contato visual direto com todos os alunos durante a aula e pode – pela expressão de seus olhos – perceber o quanto cada aluno está entendendo de sua aula.

Aula participativa

Para conseguir uma aula mais participativa a formação em círculo facilita muito, porque o professor pode interagir com todos os alunos e não apenas com aqueles que estão na frente da sala. A formação em fileiras privilegia os alunos que se sentam mais à frente e deixa os alunos do “fundão” livres para dedicarem-se a outras atividades, nem sempre relacionadas ao assunto da aula.

O aluno que senta-se ao fundo da classe também tem problemas para ver (há toda uma fileira de cabeças movimentando-se à sua frente) e o quadro nem sempre é visto com a precisão necessária para ler ou entender o que nele está escrito. Seu entendimento também fica prejudicado porque não consegue ouvir direito, muitas vezes a voz do professor chega até ele abafada ou misturada a outros ruídos da sala de aula ou do exterior.

Todas essas dificuldades transformam-se em estímulos negativos para os alunos que se sentam nas últimas carteiras de cada fileira, de forma que a formação em círculo (ou círculos) me parece mais “democrática”, pois todos são expostos aos estímulos com a mesma intensidade e – como o professor tem um contato visual por igual com todos os alunos – esse estímulo pode ser reforçado nos alunos que apresentam tendência a “ausentar-se” em espírito.

Mais conversas paralelas

Os professores que não gostam dessa disposição geralmente apontam como uma desvantagem dessa forma de disposição o aumento das famosas e incômodas “conversas paralelas”, mas a meu ver elas podem ser facilmente erradicadas com medidas como: mudança de alunos de lugar, colocando os “gêmeos siameses” em carteiras afastadas; conduzir a aula com perguntas diretas, que são formuladas e depois um aluno é apontado para responder (essas perguntas nada mais são que uma “construção” do aprendizado, partindo-se do conhecimento anterior do aluno para introduzir a matéria nova); apresentação de aulas dinâmicas, nas quais o aluno passe de mero expectador a parte atuante na construção do aprendizado; introdução de técnicas diferenciadas, jogos, disputas, trabalhos em pares e grupos, que despertem o interesse e a curiosidade dos alunos.

O aluno se distrai com conversas paralelas sempre que o assunto da aula torna-se pouco interessante para ele. Infelizmente nem sempre o que temos que passar é algo estimulante e inovador, mas podemos dar-lhe uma “roupagem” interessante e estimulante. Não há nenhuma regra dizendo que a aula “precisa” ser chata, nós é que a tornamos assim na medida em que a transformamos em longas e monótonas preleções sobre algo que dominamos perfeitamente mas que para os alunos não passa de um blá-blá-blá interminável sobre algo que ele não entende a razão de ser.

Mudar as carteiras de lugar não irá assegurar que seus alunos aprenderão mais ou que conversarão menos, mas regras (poucas e claras), formas interessantes de introduzir os tópicos, participação de todos, desafios e jogos tornarão com certeza essa disposição um aliado no aprendizado e na manutenção da disciplina.

Leia também: Métodos de Ensino


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