Inglês não reprova na escola

Você que tem filho na escola pública, sabia que inglês não reprova? Na verdade eu não sei bem como isso é feito mas – mesmo se o aluno não aprender nada de inglês – será promovido para o ano seguinte. Se não aprender geografia terá aulas de reforço, terá que estudar e refazer a prova. Mas no caso de inglês, não.

O mais interessante é que se seu filho quiser fazer uma faculdade, no vestibular será avaliado não só seu conhecimento de geografia e outras matérias que reprovam, mas também será avaliado o seu conhecimento de inglês. Isso não é interessante? Ou será que existe uma outra palavra para definir essa situação?

Eu tenho duas dúvidas quanto a esse “padrão” de dois pesos e duas medidas:

1) Muitos alunos são imediatistas, é difícil convencer uma criança de que ela deve abrir mão do que gosta de fazer para estudar e aprender coisas que irá usar só daqui a alguns anos, então a maioria de nós usa esse imediatismo como incentivo: ensinamos a criança a estudar “para tirar nota e passar”. Uma falha, já que se não estivesse na escola ela não teria “que tirar nota e passar”, dessa forma a criança passa a encarar a escola como uma obrigação chata, que implica em obrigações que ela não entende e que geram algumas necessidades que ela não tinha antes: fazer lição de casa, acordar cedo, deixar os brinquedos e os amigos, aceitar ordens de estranhos, etc., etc. E essas obrigações nem sempre são agradáveis. Conseguimos tirar partido do imediatismo da criança e do jovem, mas à medida que o tempo vai passando essa mesma criança poderá questionar: “mas para que eu preciso tirar nota e passar?”

2) Debatendo-se com essa grande dúvida, questionando a necessidade de anos e anos de esforço (que para a criança não fazem o menor sentido), se ela está na escola pública ainda há um agravante: existem algumas matérias que (ao que me parece) não fazem a menor diferença, porque mesmo que ela não aprenda e não tire nota, irá passar de ano.

Se nós mesmos ensinamos a criança que deve estudar e ir à escola “para tirar nota e passar”, como faremos para que ela sinta a necessidade de dedicar-se também a essas matérias? Como essas matérias “não reprovam” – e aí se passa claramente a mensagem de que “não são tão importantes” – qual será a motivação que usaremos para fazer com que os alunos se interessem em aprender também essas matérias?

Recebi alguns comentários de pessoas que discordam da posição do professor de inglês que tenta tornar as aulas agradáveis e atraentes para os alunos. Eles questionam essa posição porque alegam que “antigamente todo mundo estudava e ninguém reclamava de aula chata, a gente tinha que aprender e pronto!”

Eu não vou questionar o passado, mas como professora de inglês passo também por esse problema e tenho alunos desinteressados que não entendem porque os pais os matriculam em uma escola de inglês, sacrificando suas muitas horas diárias de lazer para aprenderem algo que consideram “desnecessário”, pois foi essa a mensagem que receberam na escola pública: inglês não reprova, portanto não há necessidade de preocupar-se com ele.

Como era no passado eu também sei, mas temos que nos adaptar à realidade que vivemos hoje. Hoje o inglês não reprova, mas é cobrado no vestibular. O inglês não reprova, mas é um diferencial no mercado de trabalho. Não reprova, mas para fazer alguns cursos de especialização há uma prova de inglês na admissão. Não reprova, mas os livros da faculdade são em inglês.

O que mais me chama a atenção é que quando eu estudei e o conhecimento de inglês (francês e latim também) era cobrado de nós como o das outras matérias e uma nota baixa em inglês poderia significar uma reprovação tanto quanto uma nota baixa em química ou história, não sei de ninguém nos anos 60 ou 70 que tenha perdido uma oportunidade de emprego ou uma vaga num curso de pós-graduação porque não sabia inglês. Poderia até ser considerado um “preciosismo” ensinar inglês na escola, mas era ensinado “de verdade” e seu ensino era levado a sério e o professor de inglês era respeitado como qualquer outro.

Hoje – quando os alunos são movidos pela motivação vazia do “tirar nota para passar de ano” – o professor de inglês encara um duplo desafio: tem que motivar o aluno a interessar-se pela matéria antes mesmo de ensinar; tem que preparar aulas interessantes e que sejam “aprovadas” pelos alunos. Hoje os valores estão invertidos: o professor de inglês tem que fazer das tripas, coração. Senão ele será “reprovado” pelos alunos.

Leia também: Encomenda de dinâmicas de grupo

Visite a página no Facebook: Professor de inglês no Brasil


Anúncios
%d blogueiros gostam disto: