Os passos do aprendizado

aula

Primeiro dia de aula

I – pré-disposição (antes de ter contato com a estrutura nova)

II – curiosidade (quando a estrutura é apresentada, ainda sem interferência do professor)

III – descoberta (quando o professor faz com que os alunos indaguem-se e tentem descobrir do que se trata)

IV – reconhecimento (quando separam a estrutura do contexto apresentado e seu significado)
V – formação de estruturas (quando conseguem inserir a estrutura nova em conceitos e contextos já conhecidos)

VI – formação de links (quando associam a estrutura nova a outras estruturas semelhantes já conhecidas)

VII – memorização (quando o cérebro e a memória “reconhecem” a nova estrutura e já se consegue acessá-la evocando estruturas semelhantes ou contextos que a possam conter)

VII – consolidação (quando é incorporada ao conhecimento do indivíduo, no caso o aluno)

I- Pré-disposição

Todos os indivíduos têm uma pré-disposição para o aprendizado, mesmo não estando razoavelmente interessados, diversos fatores fazem com que o aprendizado aconteça. Quando, por exemplo, uma música da moda nos irrita por sua repetição contínua em todos os meios de informação e por não satisfazer o nosso gosto pessoal, a aprendemos tão rapidamente quanto seus fãs mais ardorosos e não raro nos pegamos cantarolando a detestável canção.

A pré-disposição não é nesse contexto um sinônimo de “vontade”, trata-se de uma característica do ser humano da qual podemos tirar partido no ensino. No meu caso, não dou aulas em escola regular, sou professora em uma escola de idiomas e já que seria quase impossível ensinar se os alunos não fossem até a escola, o fato de terem se matriculado já indica essa pré-disposição. O aluno está pagando e empregando seu tempo e esforço vindo às aulas, então supõe-se que aprender o idioma seria desejável.

Naturalmente que quanto maior for a pré-disposição melhores e mais rápidos serão os resultados no primeiro contato com a matéria a ser aprendida. O fator “vontade” apesar de não ser essencial é um catalisador das forças do indivíduo no sentido de adquirir o conhecimento proposto.

Nesse sentido é importante que o professor sempre prepare uma atividade de boas-vindas no início do curso ou do ano letivo e que explique aos alunos o que esperar do curso e também o que se espera deles durante o tempo de duração do mesmo. Explicar o que irão aprender, para que serve esse conhecimento, as habilidades que irão adquirir com esse aprendizado podem favorecer essa atmosfera do primeiro estágio.

Esse estágio deverá ser renovado e estimulado pelo professor no início de cada aula e antes de introduzir qualquer lição com assunto ou informação nova. No início do ano temos classes de alunos entusiasmados e cheios de energia para aprender e participar e terminamos o ano com alunos apáticos e displicentes, que faltam às aulas, não se interessam pela matéria, descuidam-se dos deveres de casa e só querem que cheguem logo as férias. E isso acontece justamente no período em que deveriam estar mais engajados no aprendizado, que é quando são feitas as provas finais.

Professores com aulas “ditadas” em voz alta e explicações mecânicas para as paredes acabam fazendo o aprendizado implodir, estancar já na primeira fase sem que chegue sequer a completá-la. A matéria simplesmente jogada sobre os alunos, recitada mecanicamente e sem entusiasmo faz com que a pré-disposição se transforme em aversão. Em lugar de aprender, os alunos cochicham, cochilam, sonham acordados, conversam, ignoram o professor, fazem gracinhas e piadinhas interrompendo a aula, pedem para sair. Em suma, começam a boicotar a aula e é freqüente que o entusiasmo e a euforia dos primeiros dias dê lugar à tensão e ao descaso.

Conhecer os alunos, perceber como se processa o aprendizado de cada um deles, saber de seus interesses e sonhos nos torna aptos a tirar partido dessa primeira fase, incentivando-a e fazendo com que amadureça e que os alunos passem para a segunda fase do aprendizado. Criar um clima faz parte desse trabalho e é sempre importante preparar o terreno antes de jogar a semente se queremos que ela cresça, floresça e dê frutos.

Alguma atividade preliminar pode criar essa pré-disposição. Pode ser um vídeo curto, uma brincadeira, uma música contendo algumas palavras ou parte do tema que irão aprender. Um jogo onde usem estruturas que já conhecem e inclua também alguma coisa do que irão aprender também funciona muito bem. Quando o professor sabe criar esse clima, permite que os alunos desfrutem dessa atmosfera e fiquem prontos para seguir para a fase adiante.

II- Curiosidade

A curiosidade transforma a pré-disposição para aprender em “querer saber”. Antes de jogar uma enxurrada de informação faça perguntas, indague de seus alunos o que seria aquilo, para que serviria, se têm idéia de como usar. Parta sempre do que eles já sabem, e com certeza você descobrirá que eles sempre sabem muito mais do que se imagina. Mostre as figuras, o mapa, a primeira parte da lição e pergunte, pergunte. Peça que escrevam ou descrevam o que vêem e o que pensam.

Ao despertar a curiosidade do aluno e fazer com que ele traga a informação de que dispõe, você o torna parte ativa no aprendizado, e não apenas um receptor passivo. Ouça o que têm a dizer, use a informação que trouxeram para construir o que será ensinado. Use as experiências e pensamentos deles. Curiosidade nesse caso é sinônimo de atenção e interesse dos alunos e consolida a atmosfera criada no primeiro estágio.

III – Descoberta

À medida em que os alunos forem expondo suas idéias a respeito do que será ensinado, vá introduzindo o que tem a ensinar e dirigindo suas idéias e conclusões para o alvo do aprendizado. No meu caso, na aula de inglês, não digo simplesmente: azul é uma cor e isso é azul. No estágio anterior peço que descrevam o que vêem, pode ser que alguém mencione que há um sofá azul, por exemplo. Se não, vou perguntar: o que é isso? – (aluno) É um sofá. – É bonito ou feio? (aluno) Bonito.

– Por quê? (aluno) Porque é grande. Porque tem florezinhas. Porque é azul.

Ou vou perguntar: O sofá é amarelo? De que cor é o sofá? E essa caneta? E aquele livro? E os olhos da Fulana? Vou levá-los a descobrir a palavra, eles com suas respostas irão criando o aprendizado, eu como professora apenas vou guiando seus passos com perguntas que os levem a concluir o que é aquilo, para que serve, como se chama.

IV – Reconhecimento

Nessa fase eles já sabem que a palavra ensinada é azul, que é uma cor, alguns até já terão concluído que é um adjetivo (porque vem antes do substantivo), já terão separado a palavra do contexto em que se encontra, a cor azul da figura na qual está. Já percebem também para que serve e têm uma idéia de como e quando usá-la. Começam a fazer associações e procurar semelhanças e diferenças com o que já aprenderam. Nessa fase é sempre interessante perguntar ao aluno, usando uma palavra ou estrutura com a qual já esteja familiarizado. Isso é azul ou vermelho?

Como ele já domina o conceito “vermelho”, pode avaliar e ver que não é vermelho, então deduzirá que só pode ser azul, a segunda opção. O conhecimento adquirido através do raciocínio, dedução e comparação com outras estruturas já aprendidas faz-se e mantém-se de forma muito mais forte e robusta do que o aprendizado adquirido de forma passiva, onde o aluno é mero receptor de informações sem que lhe seja dada a oportunidade de racionalizar e habituar-se ao que está aprendendo.

V – Formação de estruturas

Depois de racionalizar e comparar a estrutura nova com o conhecimento anterior o aluno deve ser incentivado a usar essa nova estrutura, inserindo-a em estruturas previamente estudadas e já dominadas pelo aluno e sedimentadas em sua memória através da prática.

Conceitos anteriores: casa, verbo ser, presente do indicativo, possessivos estruturas interrogativas:

– Pergunte ao fulano se sua casa é azul.

Conceitos anteriores: existência, rua, casa, possessivos, lugar:

– Pergunte ao fulano se há uma casa azul em frente de sua casa.

Conceitos anteriores: cantor da moda (extra-classe), olhos:

– De que cor são os olhos do cantor Latino?

E assim por diante, até que se perceba que os alunos de modo geral já se familiarizaram com a nova estrutura e como usá-la.

VI – Formação de links

Nessa parte o aluno já consegue associar o azul com outras cores que já conheceu, e se pode constatar isso perguntando sobre cores, ele incluirá “azul” em seu repertório. É importante nessa fase proporcionar ao aluno ampla prática da nova estrutura, através de role-playings jogos e brincadeiras nas quais possa reconhecer “para que serve” a estrutura nova e seu cérebro a reconheça como uma estrutura útil e portanto necessária.

VII – Memorização

Nessa fase é importante que o aluno tenha um contato mais próximo com o uso da palavra, no qual possa racionalizar sem ajuda do professor ou seus colegas. Isso normalmente se dá no dever de casa, quando se percebe se ele está apto a reconhecer e usar a nova estrutura de forma eficaz e sem auxílio.

É importante que o dever de casa seja cobrado o mais rápido possível após a introdução das novas estruturas para evitar-se que uma boa parte dos novos conceitos seja apagado do cérebro e da memória do aluno. Dever de casa que acontece mais de uma semana depois da introdução de novos tópicos não é dever de casa, é revisão.

VIII – Consolidação

Sempre que evocado o conceito surge e já se pode inclusive usá-lo para introduzir novos conceitos. As revisões são importantes para refazer links “quebrados” durante o aprendizado, ligando o novo ao antigo e vice-versa, tornando o aprendizado uma teia bem emaranhada e resistente que provavelmente acompanhará o aluno durante sua vida e mesmo depois de um bom período sem ser usado sempre poderá ser reavivado à sua menção.

Conclusão

O professor deve ter em mente em cada fase proporcionar ao aluno a forma mais simples e efetiva para que ela seja completada e vivenciada por ele da forma menos traumatizante e mais confortável possível, criando associações e links com conceitos já aprendidos ou com conceitos que o próprio indivíduo traz consigo inerentes à realidade na qual vive ou fatores culturais e sociais aos quais se expõe em seu cotidiano.

Leia também: Revisão das provas: aprendendo com os próprios erros

assinatura coração

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