Múltipla escolha: um mal necessário?

Triste mas verdadeiro.

Triste mas verdadeiro.

O leitor Nelson César Pedro, professor em Moçambique,  levanta uma interessante questão em uma postagem anterior sobre este assunto. Ele pergunta quais as vantagens e desvantagens dessa forma de avaliação e depois comenta sobre a facilidade para a fraude (a popular “cola”) nas provas desse tipo.

Eu particularmente vejo com  reservas esse tipo de avaliação, mas acho que pelo menos no Brasil é pouco provável que se adotem novamente as provas dissertativas ou ainda a antiga prova oral, de preferência de surpresa. Antigamente no Brasil o professor não marcava data de prova, era na hora em que ele bem entendesse. Eu me lembro de um professor de português que já entrava porta adentro dizendo:

– Arranquem uma folha, nome número e série. Prova!!!

Era consenso entre os docentes e sabido pelos alunos que “matéria dada era matéria estudada”. Nada de estudar às pressas na véspera como agora. Hoje meus alunos faltam às aulas de inglês porque estão “em semana de provas” na escola. E a maioria múltipla escolha.

É mais prático para corrigir, se você providenciar um gabarito até macaco consegue. Mas se facilita para o professor, acaba perdendo seu sentido original: verificar o quanto o aluno aprendeu. A adoção generalizada pela prova de múltipla escolha em minha opinião é um dos agentes causadores de algumas distorções que encontramos hoje. Aliado à famigerada “progressão continuada” hoje encontramos alunos que terminam seus estudos sem serem capazes de ler nem escrever. Afinal, para receber seus diplomas de segundo grau tudo o que têm que aprender a escrever é um “x”, à semelhança dos analfabetos que o fazem no lugar de sua assinatura.

Se os analfabetos usam o “x” como assinatura, nossos alunos usam o mesmo “x” para escolher 1 entre 4 respostas sugeridas pelo professor, com 25% de chances matemáticas de acertar se for azarado, com sorte essa porcentagem pode subir bastante. Se ao lado dele estiver o aluno mais sabido da classe e supondo-se que ele não seja míope, teremos aí mais um diplomando que passará impune pelos bancos escolares sem aprender absolutamente nada.

Já que não podemos nos dar ao luxo de providenciar provas dissertativas para classes que chegam a ter até 50 alunos – como nossos governantes querem que sejam, certamente preocupados com a melhoria de nosso Ensino e com o bem-estar do profissional da Educação – temos que nos virar com o que temos, ou o que podemos ter.

Com um pouco mais de trabalho e a ajuda dos computadores e notebooks que o governo “doou” aos professores, podemos criar 2 ou 3 tipos diferentes de provas, já que nossos governantes criaram classes de 50 alunos mas as salas de aula continuam do mesmo tamanho e eles acabam quase sentados um no colo do outro, poderemos evitar pelo menos uma grande parte da “fraude”.

Naturalmente que o professor que estiver realmente interessado em saber se os alunos aprenderam ou não poderá providenciar um “trabalho” individual e dissertativo, onde o aluno terá que escrever e não colar da internet. Esbarrará então com outro problema, quando descobrir que a grande maioria não consegue nem colocar as palavras em frente umas das outras para formar as frases sem violar normas de regência, concordância e ortografia, o que dirá então escrever algo de próprio punho sobre algum assunto: não se pode reprovar alunos. Ou pelo menos não todos. Ou a maioria. O ideal é que se aprovem todos.

Antigamente professor bom era o que reprovava, e era raro porque os alunos estudavam. Hoje o professor é cobrado se por acaso reprova alguém, fica parecendo que a culpa é dele. É a nova mentalidade e não adianta querer fugir. Múltipla escolha veio para ficar. Pelo menos até que se invente um método em que os alunos precisem apenas apertar um botão, já que em breve não saberão nem pegar no lápis para fazer a famigerada “prova de x” – jogo da velha? – porque já serão alfabetizados diretamente no teclado do computador.

Leia também: Múltipla escolha: desafio ou facilitador?

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