Qual a matéria mais importante na escola?

Essa é “a pergunta que não quer calar”, que já ouvi muitas vezes. Os alunos normalmente (e eu não fui exceção quando era aluna) costumam ter uma “matéria preferida”, na qual têm maior facilidade e também a matéria que odeiam porque não dominam muito bem.

Aluno é aluno em todo lugar, os de ontem e hoje e sempre, daqui ou de qualquer outro lugar têm os mesmos “vícios”: estudam aquela matéria na qual se dão bem e deixam de lado aquelas que não entendem ou não gostam. Vivo dizendo aos meus alunos que o contrário é o bom-senso, ou seja: estudar bastante o que não se domina e “dar uma lida” naquilo que nos parece claro como água.

Há alguns anos meu filho João estava no colegial e estudava numa escola estadual. Eu e os outros pais de alunos fomos convidados num sábado a participar de uma programa destinado a trazer os pais para a escola, chamado “pais na escola”. Como dou aula também aos sábados cheguei no finalzinho e estava na sala a professora de física e química. Ela propôs uma atividade que achei interessante: dividiu a classe em duas turmas, os meninos de um lado e as meninas do outro. Faria perguntas da “vida real” e os alunos teriam que explicar com alguma regra ou fórmula de uma das matérias que ela lecionava, e os pais poderiam ajudar.

Eu, claro, fiquei do lado dos meninos. E ela perguntava coisas como “por quê o congelador fica na parte de cima da geladeira?” e outras coisas assim da vida prática, para que eles pudessem mostrar aos pais o que tinham aprendido. A primeira resposta eu sabia, a segunda, a terceira… Quando ela fez a quarta pergunta todos já olharam para mim. Em suma, ganhamos de 9 a 1.

No dia seguinte o comentário era que a mãe do João parecia metaleira, cheia de brincos e “fera” em física e quimica. E quando me perguntavam porque eu sabia tanto das duas matérias, já que sou de outra área, simplesmente explicava que para dar aulas também tive que fazer o colegial.

Mal sabiam eles que no primeiro colegial fui reprovada, e justamente em química, matéria que eu detestava porque não entendia sua utilidade e por isso mesmo deixava de lado. Fui empurrando com a barriga até que não deu mais… fui reprovada.

Pela segunda vez no colegial eu entendi que se quisesse passar para o segundo teria que aprender química. E aprendi. Aprendi mesmo, tanto que 30 anos depois ainda sabia mais de física e química do que qualquer um daqueles jovens que haviam visto a matéria naquela semana.

Imagino que em parte a culpa disso é da própria escola, essa abominável “progressão continuada” fez com que muitos alunos fossem simplesmente “passando” de uma série a outra, sem base nenhuma. Meu filho caçula chegou à quinta série sem saber ler nem escrever, e para que aprendesse tive que contratar uma professora particular. E não foi por falta de eu ir à escola, praticamente implorar para que ele refizesse a mesma série, ameaçar de entrar com um processo contra a escola… Nada adiantou, ele foi passando sem aprender nada e eles me diziam apenas: “não podemos fazer nada, é lei…”

Há também uma visão imediatista do próprio aluno quanto aos objetivos de se ensinar essa ou aquela matéria. Ensinamos aos nossos jovens o que terão que usar depois por toda a vida adulta, mas a maioria só estuda “para fazer prova”. Imaginam que é para isso que aprendem, seu objetivo é só fazer a prova e tirar nota. Os que vêem mais além estudam “para passar no vestibular”, como se fossem morrer no dia seguinte à sua aprovação para uma faculdade.

Todas as matérias são importantes e em algum momento de sua vida você vai precisar de cada uma delas. Se me perguntam qual delas é a mais importante, eu respondo com uma pergunta: qual o ingrediente mais importante do bolo?

Muitos dizem que é a farinha, o fermento, o leite… Mas na verdade o ingrediente mais importante no bolo é o ingrediente que falta. Se você esquecer do açúcar seu bolo vai ficar uma porcaria e não importa se usou a melhor farinha ou o leite mais caro em sua preparação. Da mesma forma, a matéria mais importante na sua vida será a que você deixou de aprender porque não gostava. Ela vai assombrar o resto de sua vida e em algum momento você vai ter que aprendê-la. Ou você acha que seu patrão vai se sentar pra ensinar-lhe regra de três? Ou a redigir um memorando sem erros de português?

E nem pense em me dizer que sua área é exatas, humanas, etc… isso tudo é bobagem. Se o médico que o atendeu não entende de matemática, como vai calcular a quantidade certa de medicamento que você vai ter que tomar? E você confiaria num piloto de avião que não sabe geografia? Quem lhe garante que em vez de levá-lo para Paris ele não vá pousar no aeroporto de qualquer cidade do Zaire, por exemplo?

As pessoas vivem se queixando da deficiência no mercado de trabalho, mas o que falta não são empregos e sim profissionais competentes para ocupar os cargos disponíveis. Numa fila com 10.000 candidatos faça-se uma simples provinha de 8ª série e já de cara se eliminam 90% dos pretendentes.

O que você estuda para a prova e depois esquece é o que você vai ter que correr atrás e aprender daqui para a frente. O que fica do que você aprendeu é seu, é a sua cultura. Seja na aula de geografia ou ciências, é o que você levará para sempre. Pense nisso.

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  • 2 Respostas

    1. pra mim todas disciplinas são importantes apesar deu gostar mas de matemática

      1. Sim, todas são importantes, o que eu quis dizer foi que se você deixar alguma de lado vai ter que estudá-la mais tarde, aí vai ter que dar mais importância a ela.

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