Professor X diretor / orientador da escola

Recebi hoje um comentário na página “Razões de Ser” aqui do blog e acho um ponto muito interessante: o que fazer quando temos idéias e nossa veia criativa anda a mil, mas somos podados pelo diretor ou orientador da escola?

Há algumas alternativas, mais ou menos indolores, dependendo do caso. Já me aconteceu de trabalhar em escolas onde todas as vezes em que eu queria fazer algo diferente ou tentar resolver alguns problemas de forma mais “moderninha” ou criativa, logo me aconselhavam a fazer meu trabalho da forma mais tradicional possível, que tudo daria certo no final, porque era assim que sempre tinha sido – e deveria continuar sendo, como faziam questão de frisar.

E me vinham lá com citações de filósofos, psicólogos e pedagogos que já estavam na ativa quando eu era criança, e no final arrematavam com o “papa” Piaget. Isso quando não alegavam “30 e tantos anos de magistério” para tirar logo qualquer dúvida de que realmente sabiam do que falavam.

Eu considero de uma pobreza de espírito descomunal estudar Piaget na escola e depois de 30 anos ainda só se guiar pelo que ele disse, pois isso demonstra que a pessoa não criou nem aprendeu nada com seus 30 e tantos anos de magistério, continua empacada lá no início.

Acho que ensinar pressupõe adequar o método à realidade da classe e às necessidades individuais dos seus alunos, e que sabia Piaget dos seus alunos? Como regra geral tudo o que ele disse pode ser até irrefutável, mas imagino que qualquer pensador deva ser apenas um ponto de partida, depois de alguns anos todos temos nossas próprias idéias, podemos e devemos compartilhá-las e desenvolvê-las. E sobretudo aplicá-las, restando para os autores das idéias o ônus e a responsabilidade do resultado.

Uma opção que a mim sempre pareceu covarde foi abaixar a cabeça e calar a boca temendo ser taxada de reclamona e inconveniente. Nunca me curvei a isso e sempre defendi minhas idéias, e mesmo que parecessem amalucadas a princípio sempre surtiram algum resultado quando me permitiram aplicá-las. E se o resultado não foi sempre o esperado, sempre há a auto-análise e o aperfeiçoamento para reaplicá-las novamente com maior chance de acerto.

Em última instância, se a escola tem uma filosofia totalmente contrária à sua, só resta uma saída: a porta da frente. E foi o que fiz, quando realmente não me compreendiam nem me deixavam tentar o que eu acreditava ser o correto dentro da situação, quando não me davam espaço para pensar ou criar, para fazer algo que fosse meu, tirado de minha cabeça e de minha experiência, eu simplesmente ia embora, enfiava a viola no saco e ia cantar em outra freguesia.

Não dá para trabalhar em um ambiente hostil e onde as idéias são sufocadas em nome de uma pretensa segurança e ordem. Se caminhos há, lá estão para serem testados, aprovados ou reprovados, reinventados. A cada dia aprendemos algo com nossos alunos e dessa troca tem que nascer algo de positivo e proveitoso para todas as partes. Tudo o que está estagnado em pouco tempo fica podre e morre.

O modelo de ensino de 5 anos atrás já não se encaixa na realidade do aluno de hoje e nós professores temos que estar antenados e sempre à procura de caminhos novos para chegar até eles, depertar-lhes o prazer de aprender e partilhar com ele o pouco ou muito que sabemos, da forma mais agradável e simples possível.

Talvez eu seja apenas uma pessoa teimosa, mas se teimosia é sinônimo de não abrir mão de minha filosofia, das coisas nas quais acredito, de bater de frente com quem quer que seja para defender o que julgo certo, de não aceitar que me enfiem goela abaixo teorias que não são nem poderiam ser minhas, então eu sou uma mula, estou piorando com os anos e com certeza vou morrer mais teimosa do que nunca.

Sempre que há a opção de baixar a cabeça, calar e abrir mão de tudo o que acredito ou abrir mão do emprego, nunca tive dúvidas. Sempre saí serenamente e de cabeça erguida, porque não trabalho onde as pessoas já decidiram tudo antes de eu chegar. Se não faço diferença, também não faço falta, então que arranjem uma peça de reposição.

(zailda coirano)

4 Respostas

  1. Ao ler este ponto de vista fui ficando animado com este modelo de professor que não se tolhe em inovar, transformar, moldar e se moldar porém no transcorrer da leitura fui ficando com a sensação de estarmos perdendo algo pois se cada um desses Professores pegarem suas violas e forem cantar para outras bandas, deixarem de intervir naquele local como que ficam aqueles alunos, abandonados a mercê da madiocridade e a sociedade que precisa desta energia inovadora? Já sei : – ESPEREM …

    Zailda responde:
    Infelizmente quando a direção da escola não concorda com idéias inovadoras e tolhe qualquer iniciativa criativa para resolver os mesmos velhos problemas resta pouco a fazer. Uma das alternativas é pegar a viola e cantar em outra freguesia (menos desgastante) ou “dar murro em ponta de faca” (inútil e estressante).
    Os alunos podem perder alguma coisa com isso, mas a maioria resiste às mudanças, preferem fazer tudo “como era antigamente”, aí fica impossível para o professor.
    Obrigada por comentar. O assunto merece uma discussão mais extensa, não acha?

  2. […] Quando fiz a postagem Professor X diretor / orientador de escola confesso que fiquei frustrada por ter passado em brancas nuvens, como se fosse um problema só meu. […]

  3. […] Professor X diretor / orientador de escola Tags: educação, ensino […]

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