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Ensino de português para estrangeiros (PLE)

portuguesSempre que me envolvo na discussão “que tipo de recursos usar para ensinar português para estrangeiros” há sempre alguém (frequentemente mais de uma pessoa) dizendo que devemos usar “recursos reais”.

Eu não vou aqui desmerecer quem fez mestrado, doutorado e tudo o mais para ensinar português para estrangeiros, mas também me reservo o direito de ter a minha opinião. A mim me parece que há um certo “preciosismo” quando se fala no ensino de PLE, como se fosse algo que paira acima do ensino de outros idiomas e que, assim sendo, não tem qualquer relação com as metodologias empregadas no ensino de inglês, francês ou outro idioma qualquer. A impressão que se tem é que aprender português é algo diferente de aprender qualquer outra segunda língua.

Não acredito que seja assim. Podemos ensinar português usando a mesma metodologia com que ensinamos espanhol ou russo, mudando apenas o vocabulário e a gramática – of course!

Da mesma forma que usamos livros e apostilas para o ensino de outros idiomas, podemos fazer o mesmo com o bom e velho português. Como acontece nas aulas de inglês, material “real” pode e deve ser usado – aliado ao material didático e paradidático empregados – para que haja não só uma adequação do aluno ao idioma como ele é falado, mas também a sua familiarização com vocabulário e gramática de acordo com o padrão da língua.

Os regionalismos são também importantes, mas eu me pergunto: se um carioca é capaz de viver uma vida inteira e se comunicar muito bem sem conhecer o “dialeto” do mineiro ou do gaúcho, por que eu teria que sobrecarregar meu aluno estrangeiro tentando passar para ele TUDO o que se fala no Brasil?

Eu acredito que o aluno deva explicar ao professor os motivos que o levaram a procurar um curso. Baseando-se nesses motivos o professor poderá então direcionar o vocabulário / sotaque / enfoque / material “real” para os objetivos do aluno:

- Para fins profissionais? Qual profissão? Como será a comunicação – falada, escrita, etc.?

- Vai fazer um curso? Que curso? Que livros vai usar? Haverá necessidade de desenvolvimento das habilidades fala e audição?

- Vai viajar para o Brasil? Para que Estado ou região? Com quem terá contato? Quanto tempo vai ficar?

E assim por diante. Mais que “a opinião do professor” deve-se adequar o conteúdo e o método às necessidades do aluno, dos alunos ou da classe em geral, sua faixa etária, o uso que fará (ou farão) do idioma, o nível ao qual pretende chegar, quanto tempo tem para estudar, qual a carga horária e duração do curso, e outras considerações do gênero que devem pesar tanto na escolha do material quanto na elaboração das aulas e na definição da metodologia a ser empregada.

Minhas crenças como professor são muito importantes, mas eu não posso olhar apenas para meu umbigo e aferrar-me a elas, esquecendo que o objetivo maior do curso existir é o aluno, dessa forma minhas crenças devem ser elásticas o suficiente para que possam fornecer a ele exatamente o que está procurando.

Zailda Coirano – SOS Idiomas & Digital Goods

Favoreça a prática constante

“A prática leva à perfeição.” Quantas vezes você já ouviu essa frase? E não há como contestar, porque quanto mais fazermos algo, melhor o fazemos. O aluno não vai aprender simplesmente porque recebeu uma informação. Ele só irá aprender se praticar e usar o que precisa aprender.

Imagine um professor de natação. Se ele reunisse os alunos em volta da piscina e todos os dias discorresse sobre as técnicas e estilos de natação, como posicionar o corpo, os membros e a cabeça, como respirar e mergulhar, você acha que ao final de um mês de aulas puramente teóricas seus alunos já saberiam nadar?

O que faz com que o aprendizado se consolide é a repetição, mas não a repetição do mesmo discurso ou das mesmas palavras, mas a repetição da ação. Se um determinado aluno ainda não aprendeu o que os outros já dominam, isso significa que ele precisa de mais prática.

Muitas vezes os alunos sabem, mas não respondem corretamente ou dizem que não sabem apenas porque estão inseguros. A prática fará também com que tenham a segurança necessária para saberem o que devem responder.

Sempre inicio as explicações com perguntas:

O que você acha…?

Como você explica…?

O que acha que vai acontecer?

Qual a diferença…?

E assim vou colhendo respostas, sugerindo ideias e permitindo que eles tirem algumas conclusões. Dou exemplos, peço que criem exemplos, faço perguntas, peço que façam perguntas uns aos outros, faço jogos, crio competições. Só passo ao próximo tópico depois de ter praticado bastante e de sentir que já estão seguros quanto ao tópico anterior.

O cronograma tem que ser seguido, mas não posso criar um cronograma “abstrato”. Tenho que preparar meu cronograma levando em conta os dados reais, e o mais importante é que haja o aprendizado. Saber concentrar-me no que é mais importante e deixar que descubram os detalhes é de suma importância. Não há como eles saberem tudo de tudo. Eles têm que aprender o essencial de cada coisa e precisam de recursos para descobrirem o restante por conta própria.

E – sobretudo – fuja da “técnica do decorebas”. Fazer seus alunos decorarem uma lista de verbos não significa que saberão usá-los. Lembre-se que tudo que o aluno aprende tem um objetivo, deve ser capaz de usá-lo em algum momento. Se decoramos algo vamos saber recitar sempre que solicitado, mas jamais saberemos como empregar aquilo de forma prática.

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Preparação de aula

Não importa há quantos anos você é professor nem quantas vezes já ensinou essa matéria. Cada aluno é diferente, tem diferentes necessidades, interesses e dificuldades. Uma aula bem preparada, “customizada”, tem muito mais chances de sucesso que uma aula que você já deu 10 vezes da mesma forma.

Até para o professor é cansativo ensinar “sempre a mesma coisa”. Se tenho uma classe de alunos que tendem à passividade e ao desinteresse, uma aula dinâmica, um jogo ou atividade onde possam desenhar, escrever, discutir ou competir certamente será mais indicada. Dando a mesma matéria para uma classe competitiva, onde os alunos têm “bicho carpinteiro” posso escolher algo mais “calmo”, como uma leitura silenciosa (quanto mais silenciosa, melhor) para iniciar, exercícios escritos e depois um PowerPoint com um jogo no qual todos possam participar pode ser o mais indicado.

Você pode achar que irá dar mais trabalho, que irá comprometer o pouco tempo que você tem. Em parte você está certo, dará mesmo mais trabalho, mas só durante a preparação. Todo aquele tempo que você gasta nas aulas de recuperação ou tentando despertar o interesse dos alunos pode ser bastante abreviado, e no final você irá notar que – mesmo gastando mais tempo antes – gastará muito menos tempo depois.

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A disposição das carteiras na sala de aula

Eu sei que esse assunto é complicado porque nem sempre há lugar na sala para os alunos que temos, então falar da disposição das carteiras pode parecer uma utopia. A disposição tradicional (em fileiras) pode ser a que abriga o maior número de carteiras na sala e portanto a mais prática, mas não é a mais eficiente do ponto-de-vista didático.

Trabalho há anos (desde 98) com as carteiras em círculo e essa é a melhor disposição em minha opinião. Se não há lugar para todos os alunos em um grande círculo, por que não um círculo maior com outro menor no centro deste?

Claro que esse “círculo” seria aberto na parte da frente da sala, dando passagem para o professor. Dessa forma o professor, à medida em que explica, passeia por entre os alunos, e pode dar sua aula alternando-se entre o quadro (ou a frente da sala, onde pode haver também um aparelho de DVD) e o centro do(s) círculo(s).

As vantagens são inúmeras porque o professor (mesmo que haja dois círculos, um dentro do outro) tem um contato visual direto com todos os alunos durante a aula e pode – pela expressão de seus olhos – perceber o quanto cada aluno está entendendo de sua aula.

Aula participativa

Para conseguir uma aula mais participativa a formação em círculo facilita muito, porque o professor pode interagir com todos os alunos e não apenas com aqueles que estão na frente da sala. A formação em fileiras privilegia os alunos que se sentam mais à frente e deixa os alunos do “fundão” livres para dedicarem-se a outras atividades, nem sempre relacionadas ao assunto da aula.

O aluno que senta-se ao fundo da classe também tem problemas para ver (há toda uma fileira de cabeças movimentando-se à sua frente) e o quadro nem sempre é visto com a precisão necessária para ler ou entender o que nele está escrito. Seu entendimento também fica prejudicado porque não consegue ouvir direito, muitas vezes a voz do professor chega até ele abafada ou misturada a outros ruídos da sala de aula ou do exterior.

Todas essas dificuldades transformam-se em estímulos negativos para os alunos que se sentam nas últimas carteiras de cada fileira, de forma que a formação em círculo (ou círculos) me parece mais “democrática”, pois todos são expostos aos estímulos com a mesma intensidade e – como o professor tem um contato visual por igual com todos os alunos – esse estímulo pode ser reforçado nos alunos que apresentam tendência a “ausentar-se” em espírito.

Mais conversas paralelas

Os professores que não gostam dessa disposição geralmente apontam como uma desvantagem dessa forma de disposição o aumento das famosas e incômodas “conversas paralelas”, mas a meu ver elas podem ser facilmente erradicadas com medidas como: mudança de alunos de lugar, colocando os “gêmeos siameses” em carteiras afastadas; conduzir a aula com perguntas diretas, que são formuladas e depois um aluno é apontado para responder (essas perguntas nada mais são que uma “construção” do aprendizado, partindo-se do conhecimento anterior do aluno para introduzir a matéria nova); apresentação de aulas dinâmicas, nas quais o aluno passe de mero expectador a parte atuante na construção do aprendizado; introdução de técnicas diferenciadas, jogos, disputas, trabalhos em pares e grupos, que despertem o interesse e a curiosidade dos alunos.

O aluno se distrai com conversas paralelas sempre que o assunto da aula torna-se pouco interessante para ele. Infelizmente nem sempre o que temos que passar é algo estimulante e inovador, mas podemos dar-lhe uma “roupagem” interessante e estimulante. Não há nenhuma regra dizendo que a aula “precisa” ser chata, nós é que a tornamos assim na medida em que a transformamos em longas e monótonas preleções sobre algo que dominamos perfeitamente mas que para os alunos não passa de um blá-blá-blá interminável sobre algo que ele não entende a razão de ser.

Mudar as carteiras de lugar não irá assegurar que seus alunos aprenderão mais ou que conversarão menos, mas regras (poucas e claras), formas interessantes de introduzir os tópicos, participação de todos, desafios e jogos tornarão com certeza essa disposição um aliado no aprendizado e na manutenção da disciplina.

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Como ensino isso?

Conheço alguns professores que reagem muito mal todas as vezes que alguém sugere alguma novidade ou dá alguma sugestão sobre como ensinar, praticar ou reforçar qualquer ítem novo. A resposta deles às vezes me surpreendia, vinda de um colega que até então eu admirava:

- Não, eu sempre ensinei assim e sempre deu certo.

E eu ficava me perguntando: “Sempre não é muito tempo? Será que os alunos de 20, 30 anos atrás quando esse professor começou a ensinar dessa maneira não são um pouco diferentes dos alunos de hoje em dia? Sempre deu certo? O que significa exatamente isso? Que todos os alunos aprenderam e não tiveram problemas? Ou que fazendo sempre do mesmo jeito deu certo porque não dá muito trabalho? Mas afinal, deu certo pra quem?”

Sobre pedras e seres humanos

Há um ditado popular que diz que “até as pedras se encontram” e se isso acontece deve ser porque elas mudam de lugar. Se até as pedras, que são objetos inanimados se movimentam, por que nós, seres humanos, devemos fincar pé em nossas convicções e métodos (muitas vezes ultrapassados) e não sair do lugar? Somos professores ou mulas empacadas? Será que não podemos aprender também com nossos erros e com nossos alunos?

Se você tem alergia só de ouvir falar em “reciclagem”, “otimização”, “aperfeiçoamento”, “desenvolvimento”, e já fica se coçando todo, será que não está mais do que na hora de você rever seus conceitos? Será que seus alunos aprendem mesmo e gostam de sua aula ou será que ela só é agradável e produtiva para você?

E mesmo que você esteja conseguindo um bom resultado, há algum mal em melhorar? Será que faria mal sair dos seus 70 ou 80% (quem dera…) que parecem satisfatórios para você e tentar outros caminhos? Faria algum mal além de ensinar também ter uma aula agradável e leve, onde os alunos além de aprender também se divertissem? Que fizessem as atividades com prazer e não por obrigação?

Traçando metas

Se tudo o que você quer é cumprir suas horas e ir logo embora para casa, se a escola para você é uma obrigação e você já está em contagem regressiva, contando os anos que o separam da mais-que-almejada aposentadoria, então não temos mesmo muito a conversar. Foi um prazer te conhecer, mas talvez um blog de amenidades, quem sabe lhe agradaria mais…

Mas se você realmente quer melhorar o seu desempenho e a participação de sua classe, então há mesmo muitos caminhos. Trace seus objetivos: quer mais interesse, mais participação, alunos mais produtivos, resultados melhores nos testes? Desenhe seus ideais e depois vamos tratar de correr atrás.

Auto-crítica

Ninguém aprende sem auto-crítica. Se cada vez que alguém faz um comentário não muito elogioso ao seu trabalho ou aos seus métodos você fica mais ouriçado que um porco-espinho, fica difícil fazer uma análise fria e clara a respeito do que você vem fazendo até agora. Antes de mais nada, esqueça que foi você quem preparou o material e analise suas aulas como um aluno.

Pergunte a si mesmo, enquanto analisa seu material:

- Eu gostaria de assistir essa aula?

- Aprenderia? Haveria formas mais fáceis de ensinar / aprender isso?

- Eu acharia essa aula interessante ou seria apenas uma aula igual a todas as outras antes dessa e depois dela?

- Minhas aulas são criativas e exploram bem os assuntos propostos, inserindo-os na realidade dos alunos e usando seu conhecimento prévio ou são como as contas de um rosário, completamente iguais, monótonas e mais parece que estou ensinando para mim mesmo?

Mudanças são bem-vindas

Sempre que mudamos alguma coisa, que acrescentamos um toque pessoal àquilo que ensinamos, o interesse dos alunos cresce. Isso funciona em todos os setores, basta olhar o sagrado-bife-nosso-de-cada-dia, basta fazer um molhinho, jogar uma cebola picada e alguns pimentões cortados que ganham nova cor e sabor, até os que já estavam olhando de nariz torto para o seu bife vão querer comer pelo menos um pedacinho.

Gostamos de coisas novas, o ser humano gosta de novidades, está em nossa essência. Se assim não fosse, estaríamos ainda morando em cavernas e garatujando hieróglifos em suas paredes. O ensino também evolui porque as cabeças dos alunos de hoje não são as mesmas e nem funcionam da mesma forma que dos alunos da década passada.

A realidade dos alunos da segunda década do século 21 tem pouco a ver com a realidade dos alunos do início do século. E você ainda dá as mesmas aulas que dava no século passado?

Fazendo experiências

Se você não quer mudar radicalmente – nem deve, diga-se em seu favor – que tal experimentar algumas sugestões e idéias? Que tal trocar figurinhas com outros professores? Que tal usar técnicas e enfoques diferentes, testados e aprovados por outros professores?

A partir do mês que vem vou publicar idéias, sugestões, apostilas, planos de aula em outro blog. Será o blog da idéias, das novidades, da troca de idéias entre professores. Falta só um pouquinho, em breve estará com várias sugestões que você poderá aproveitar, adaptar ou simplesmente usar como fonte de inspiração. Alguns recursos “modernos” como a internet (e a internet é moderna? Foi criada na segunda guerra mundial!) e a internet 2.0 – essa sim um verdadeiro “achado” para nós, professores.

Espero com isso contribuir de alguma forma para que nossos alunos tenham um aprendizado mais prazeroso e eficiente, e que essa aposentadoria que você tanto espera custe menos a chegar, já que o tempo passa mais rápido quando estamos fazendo algo agradável. A minha já chegou, mas continuo aqui tentando desbravar novos caminhos. É a vida…

assinatura coração

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