O primeiro dia de aula

Não importa se vai ser a sua estréia como professor ou se você já tem 30 anos de profissão, o primeiro dia de aula sempre causa uma certa apreensão e insegurança. Aquele momento em que entramos na sala, nos posicionamos na frente da sala e todos os olhares se voltam para nós sempre causa aquele friozinho na barriga, por mais seguro que você esteja do que vai fazer.

Alguns professores novatos me perguntam quando deixarão de ficar nervosos no primeiro dia de aula e minha resposta é sempre ‘quando pararem de dar aulas’. Quando entramos na sala e todas as atenções se voltam para nós, sabemos que temos nas mãos a direção de tudo o que acontecerá dali para a frente. Se vamos conduzir de forma agradável e proveitosa, ou se vamos perder essa direção no meio do caminho, ou ainda se vamos conduzir de forma que não seja a que planejamos, é um completo mistério em nossa mente nesse momento.

Por isso é tão importante levar o seu ‘script’ na ponta da língua, quanto mais planejado estiver cada momento de sua aula, mais seguro você se sentirá e mais segurança passará aos alunos. Eles sentirão que estão sendo guiados por alguém que sabe o que está fazendo e que tem uma idéia clara de onde quer chegar.

E se me ‘der um branco’?

Lembro-me que no primeiro dia de aula, por mais que eu tivesse treinado antes, houve um momento em que eu me esqueci completamente como operar o equipamento da sala para continuar minha aula. Quando acontece de ‘dar um branco’ você pode dar um tempo que a memória vai voltar. Tenha umas perguntas ou traga umas figuras, nesse momento aproveite para fazer suas perguntas enquanto seu cérebro tenta acessar a informação que perdeu. Peça a um aluno que pregue as figuras que você trouxe no quadro. Enquanto isso tente se acalmar e lembrar o que esqueceu.

Disfarçando o nervosismo

Você pode dizer aos alunos que está um pouco nervoso porque estava ansioso para conhecê-los e quer ter um bom relacionamento com eles (mas não diga que está nervoso porque nunca fez isso antes). Dizer que está nervoso quando se está em público já reduz 50% do nervosismo e cria uma atmosfera de compreensão entre os alunos, eles vão se solidarizar com você e creditar algum erro que você cometa a seu nervosismo.

Se suas mãos estiverem tremendo, apóie-as na mesa até que parem de tremer, segure uma caneta ou régua firmemente com as duas mãos enquanto fala. Se suas pernas tremem, escore-se na mesa ou sente-se por alguns momentos enquanto fala. Se sua voz treme e deixa transparecer seu nervosismo, fale um tom mais baixo forçando a voz até controlar e aí vá modulando e soltando a voz aos poucos. Se você gagueja quando está nervoso, peça a um aluno que leia o trecho que vai explicar.

Erros podem ser corrigidos

Se você está tão nervoso que cometeu um erro, não é o fim do mundo, diga ‘desculpe’ e comece outra vez. Se pulou uma página inteira do livro, por exemplo, e algum aluno lhe chamar a atenção para o fato, diga: vamos ver essa parte primeiro porque vai ajudar a entender essa. Professores monótonos e previsíveis tornam seus próprios erros mais evidentes. Se você sempre começa de determinada maneira e depois esquece e pula para a próxima fase, seus alunos vão perceber e lhe chamar a atenção para o fato. Se você faz sempre de forma diferente pode ser que eles nem percebam a falha.

Perguntas difíceis

No início das aulas é comum os alunos tentarem ‘testar’ o professor para ver se realmente podem confiar nas informações que eles passam. São comuns as perguntas que aprofundam a matéria para além daquilo que está previsto na lição. Se você achar que a pergunta é pertinente e souber a resposta, responda com clareza e de forma sucinta; se a pergunta foge muito à matéria, diga aos alunos que as perguntas não relacionadas diretamente ao que está sendo ensinado serão respondidas no final da aula.

E se eu não souber a resposta?

Seja honesto, diga simplesmente que não sabe e que vai pesquisar a respeito. Diga ‘essa questão é interessante’ e na próxima aula traga mesmo a resposta. Ensine-os a confiar em você cumprindo sempre o que promete.

E se um aluno me questionar?

Acontece, e devemos estar preparados para todo tipo de ‘ataque’. Temos que ter consciência de que os alunos nos testarão no início para descobrir até onde sabemos do que estamos ensinando e até onde podem ir conosco. Testam nosso conhecimento e nossos limites e isso é natural, não devemos levar isso para o campo pessoal. Não estão fazendo isso porque não foram com a sua cara, ou porque não confiaram em você, fazem com todos os professores que não conhecem.

Um aluno uma vez me perguntou o significado de uma palavra que eu realmente não sabia. Eu disse que não sabia e que poderia pesquisar (ou ele próprio poderia fazer isso), já que não tinha nada a ver com o que eu estava ensinando naquele momento. Quando vou ensinar alguma coisa, faço uma lista das possíveis palavras relacionadas e que podem ser alvo de perguntas dos alunos. Se vou falar sobre casamento faço uma lista com bolo, noiva, noivo, etc. Mas eles sempre lembram de alguma coisa que não passou em nossa cabeça e que não sabemos ou que não conseguimos lembrar.

Pois o aluno disse que eu sendo professora de inglês TINHA QUE SABER o significado de todas as palavras. Eu então fiz algumas perguntas a ele:

- Quantos anos você tem? Você fala português fluente? Você aprende português a quanto tempo na escola?

Por acaso era um aluno universitário, então perguntei se ele poderia responder a uma pergunta minha: ‘Como se diz picnic em português?’ Ele não conhecia a palavra ‘convescote’, que não é muito usada. Eu disse então que não sendo nativa naturalmente que algumas palavras eu não conhecia e que mesmo falando português e já tendo dado aulas de português de vez em quando preciso recorrer a um dicionário de português pois esbarro com uma palavra que não conheço o significado. Disse que ele poderia ficar tranquilo que eu conhecia todas as palavras que o método entendia que ele tinha que aprender nesse estágio.

Estabelecendo regras

Algumas regras têm que ser colocadas logo de cara, explique-as logo depois de sua introdução pessoal. No meu caso eu peço aos alunos que só me façam durante a aula perguntas relacionadas à explicação. Perguntas que não estejam relacionadas e questionamentos pessoais devem ser apresentados só no final da aula. Isso evita que eles nos façam desviar do assunto principal, fazendo perguntas não ligadas à matéria. Professores novatos costumam cair nesse engodo e na verdade eles nem querem a resposta, só querem matar o tempo e impedir que você passe a matéria.

Amanhã será outro dia

Aprenda com seus erros, depois da primeira aula felizmente há uma segunda aula onde você poderá corrigir tudo o que achou que não saiu bacana da primeira vez. Não tenha medo de confessar seus erros, seja humilde. Não tenha medo de dizer: na aula anterior eu disse tal coisa, mas verifiquei que a informação não está correta, por favor corrijam, a informação é a seguinte:… Ao contrário do que parece, seus alunos vão passar a respeitá-lo mais por isso, eles respeitam muito mais um ser humano que tem a coragem de admitir que errou e está disposto a corrigir seus erros do que uma pessoa prepotente que finge que é um deus e depois de dizer algo, mesmo estando incorreto, jamais volta atrás.

Leia também: Quando aplicar dinâmicas

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3 Respostas

  1. [...] faço, vejo em sonhos, muito claramente. E, finalmente, todo o conhecimento, a vivência que tenho O primeiro dia de aula – questaodeclasse.wordpress.com02/02/2009Posted by: Zailda Coirano on: Fevereiro 2, 2009 In: [...]

  2. Adorei as dicas de ” primeira aula”.

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